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Comunidade

Favela luta para ser reconhecida como humana, para então falar em direitos humanos

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Por: Fernanda Paixão e Yane Mendes, para PerifaConnection, na Folha de S.Paulo

Escrever sobre direitos humanos sendo da periferia às vezes é visto como uma contradição, já que esse assunto que foge da realidade de quem mora nesses locais. Chegar na favela falando sobre esse tema faz com que várias interrogações surjam na cabeça da galera.

A culpa não é dessas pessoas. A culpa talvez seja do egocentrismo da militância, que se autointitula organizada, em achar que o diálogo possível acontece a partir do uso de termos que muitas vezes são pesquisados no Google para satisfazer a imagem do “mais sabido” (termo que vovó usa).

Na época em que o Brasil ainda era uma colônia, os europeus impuseram o seu poder e a sua cultura para as populações locais. A sociedade brasileira foi construída com uma base eurocêntrica.

A população negra foi e ainda é uma das mais afetada pela supervalorização dos brancos a partir do processo de escravização. De acordo com o IBGE (2019), 19,2 milhões de brasileiros se declaram pretos e 89,7 milhões pardos. Para o instituto, os dois grupos, com quase 109 milhões de indivíduos, formam a raça mais numerosa do Brasil: a negra.

A segregação e o menosprezo impediam dos brasileiros de se autorreconhecerem como negros e o Estado e a sociedade de tomarem iniciativas de reparo e inclusão. Após o fim da escravidão e a industrialização, o Estado não criou um planejamento de inserção social para a população negra. Sem acesso a direitos básicos como educação, saúde e segurança, a marginalização foi inevitável.​

Se por um lado as favelas são vistas como a mistura de ritmos e de pessoas alegres, acolhedoras e trabalhadoras que constroem a base do Brasil, por outro não podem ser lembradas de forma romântica. Falta acesso a direitos essenciais para a existência de seres humanos.

A carência que diferentes povos sentem de serem reconhecidos mostra como é incoerente o discurso que somos todos iguais. Em um cenário em que a expectativa de vida, as oportunidades de emprego, o direito de ir e vir são menores e as ameaças de acordar com um chute da polícia na porta de casa são maiores, que é o caso nas periferias, como falar em direitos iguais? Como inserir essas diversas realidades dentro desse termo? Não conseguimos e não queremos unificar o que já é separado pelo sistema.

Ampliar o debate significa sair da simplificada leitura de livros. O ideal é ler a vida das pessoas, que não têm noção do valor dos seus trabalhos e do significado de suas existências no mundo.

A palavra vale ouro na favela. A defesa de algo ou de alguém vai da guerra ao amor nesses territórios. Em seus “discursos bonitos”, alguns defensores fogem das perguntas: “que população é essa?” e “até onde é o limite desse defender?” É tanta desestrutura vivida por meio de planos bem arquitetados que fica difícil de saber por onde começar a pontuar. Na prática, essas pessoas são jogadas à própria sorte em casas amontoadas em morros ou becos com estruturas precarizadas. Enquanto para uns é apenas um som agradável, para outros a chuva é o desespero de se perder tudo, inclusive a própria vida.

Reconhecer quem luta pelos direitos humanos é necessário e urgente.

Nicoly, 14 anos, moradora da Cidade de Deus, zona norte do Recife, dá aula de reforço para as crianças do ensino fundamental na favela que mora. Essa não é uma ação que faz a diferença na educação brasileira?

Marginal Zo, moradora da favela do Coque, jovem poeta marginal, trabalha como ambulante dentro do metrô da cidade. Entre um vagão e outro, troca ideia com outros vendedores. Em muitos casos, os trabalhadores informais do metrô não conseguem uma oportunidade de trabalho por terem saído da cadeia. Isso não é trabalhar linguagem, diálogo e auto-organização?

Vendo essas atitudes locais, fica a pergunta: onde que pega a carteirinha que legitima quem “realmente” defende esses tais Direitos Humanos?

Durante a pandemia, os ônibus estão lotados e as passagens aumentando, e pessoas que vivem e moram em Suape, no Pernambuco, são pressionadas pela construção de um porto. O trabalho escravo ainda existe em muitas regiões.

O nosso enfrentamento à ausência de direitos humanos não cabe na romantização do termo microempreendedorismo. Nos reinventamos. Não porque tudo é poético! É que a fome chegou junto com o vírus e o que era ruim piorou e aí que sempre buscamos outros caminhos para não nos entregarmos.

A gente sabe a cor e a classe de quem tá morrendo mais nesta pandemia. Sabemos quem vive o caos da saúde pública, o não direito à moradia, as ameaças de a barreira cair em cima de casa na chuva e a dor da fome. Aliás, quem consegue comer hoje com o preço dos alimentos como estão? Afinal, o direito de que humano estamos falando?

Fica difícil se reconhecer como gente quando todo dia ligamos a TV e os teus estão sendo apresentados como números de mortos que não param de crescer. Estar na interseção de todas essas problemáticas é prejudicial para a construção de um futuro.

Como haverá futuro se estamos em meio a um derramamento de sangue que mostra a existência do genocídio dos nossos jovens? Não há perspectiva nessa prisão de monocultura e de falta de acesso.

O Brasil precisa reconhecer os defensores vivos e proteger quem bota a cara na frente das armas do sistema. E, sim! Estamos falando literalmente levando arma na cara. Não é sobre ser super herói, mas é dizer que o Professor Xavier não teria salvado ninguém se não fosse o “time do X-Men” na rua com corpo na luta. Não é escolhendo um ícone que as coisas vão mudar. Talvez o que falta é definir a estratégia de se falar sobre essa importante pauta.

Conversar tomando um litrão com a vizinha com um brega no cebrution, plantar uma mudinha de qualquer coisa no terraço de casa com as crianças, passar na rua e acenar para os idosos, dividir a mangueira quando chega água na casa, dividir a cesta básica com o outro como já fizemos antes da pandemia e agora cada vez mais. Teríamos milhões de estratégias para citar. Isso é a favela que tá na luta de ser reconhecida como humanos para depois a gente conversar sobre direitos.

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Comunidade

Voz das comunidades e Polícia militar de mãos dadas em prol de crianças da Vila Cruzeiro

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Major Bianca distribuindo álcool em gel. Foto: Vilma Ribeiro / Voz Das Comunidades

Na manhã da segunda-feira (07) na Vila Cruzeiro, Zona Norte da cidade do Rio, aconteceu um marco muito simbólico na comunidade. Depois de um ano inativo, o Centro Atitude Social retornou às atividades graças a uma parceria com a Unidade de Polícia Pacificadora da Vila Cruzeiro.

Após 5 anos sem qualquer convênio para auxiliar a continuidade das atividades, o projeto Atitude Social finalmente encontrou um parceiro para continuar com os trabalhos na comunidade da Vila Cruzeiro: a UPP da comunidade. Os policiais da unidade de polícia da favela estarão atuando como professores dos projetos sociais, depois de mais de um ano sem atividades socioeducativas no espaço.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

A assessora de polícia de proximidade, Major Bianca Neves, comentou sobre essa parceria. “Temos 19 das 29 UPPs com esse projeto de prevenção. A partir de hoje, teremos 20 unidades com esse projeto. Para mim isso é de extrema relevância proporcionar para estas crianças, jovens e adultos esta oportunidade de aproximação com a polícia militar. Queremos quebrar este estigma. Atrás da farda existe um pai, uma mãe, e nosso objetivo é proporcionar uma mudança na vida dessas pessoas”. Atualmente, segundo a major, mais de 4 mil pessoas são beneficiadas por estas ações de integração das unidades de polícia pacificadora.

Outros agentes também comentaram sobre esta integração: Major Leonardo Nogueira e o Capitão da UPP da Vila Cruzeiro, Luciano Monteiro. O major ressaltou que é fundamental a segurança pública prevalecer na comunidade, “Não é possível fazer segurança pública sem a participação da comunidade. O que estamos fazendo aqui é uma tentativa de aproximação da polícia pacificadora com essa parte da comunidade”. Já o capitão frisou a importância de fazer da favela uma referência no que diz respeito ao trabalho de integração social da polícia. “A mudança só vem se for uma mudança estrutural, não ocasional. Se fizermos essa mudança desde agora, podemos mudar essa realidade no futuro, mostrando novos horizontes”.

Além desta ajuda da UPP da Vila Cruzeiro, o espaço Konteiner também será um dos parceiros do Centro Atitude Social. “Nossa intenção é unir essa força, para que o Estado entre de uma forma que realmente possa mudar vidas. Além de trazer uma luz para nossos jovens, através do esporte e da cultura, o objetivo de Konteiner sempre será este: de ajudar a comunidade, de diversas formas”, destacou um dos fundadores do Konteiner, Leonam Silva.

A comunidade celebrou a volta das atividades no espaço que já atendeu mais de 8 mil crianças desde sua fundação em 2004. “Esse projeto é gratificante para nossas crianças, ainda mais nessa pandemia onde as crianças estão muito dentro de casa. E aqui temos a confiança no trabalho e que nossos filhos estão se desenvolvendo. Finalmente olharam para o projeto, para melhorar ainda mais”, relatou Tânia Cetera, de 58 anos.

Aluno do projeto desde a infância, Renato Silva, hoje com 20 anos, faz parte da escolinha de futebol e comentou também sobre a ocasião. “É importante para nós, e nossa comunidade, de correr atrás de uma vida melhor. O projeto Atitude Social é isso aí, só coisas boas”.

Sandra Vieira celebrou a retomada das atividades e falou de como isso é significativo para a comunidade da Penha.
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Sandra Vieira, coordenadora do espaço, falou com alegria sobre este recomeço. “Hoje é um marco. Estamos inaugurando essa iniciativa social com a UPP. É o que sempre quisemos ver. Esse trabalho de cidadania. Estamos muito felizes. Vou me dedicar para que seja tudo em prol da nossa comunidade”.

Serão oferecidas 3 novas oficinas pela UPP, sendo estas: Música, Natação e Jiu-Jitsu. Para realizar a inscrição é necessário ir até a unidade com os seguintes documentos:

Certidão de Nascimento (cópia)
Carteira de vacinação (cópia)
Documento de foto do responsável (cópia)
Declaração escolar

O Centro Atitude Social está localizado na Estrada José Rucas 1266, Vila Cruzeiro, Penha – RJ.

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Comunidade

Debate ambiental rompe bolha e chega nas favelas, onde mudanças climáticas serão mais sentidas

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“Nada sobre nós sem nós.” Vi essa frase grafitada em um muro e foi como se a cidade traduzisse pra mim da forma mais simples possível o que há quase seis anos no Engajamundo, instituição que promove a atuação de jovens no enfrentamento de problemas ambientais, a gente vem espalhando, como sementes, nos espaços de juventudes.

Saber que somos os mais afetados e vulneráveis aos impactos das mudanças do clima não é e nunca foi o bastante, pois não somos escutados na construção de soluções conjuntas.

Lá nos anos 2000, falar de meio ambiente era papo distante demais pra quem tinha pouco acesso a quase tudo. A gente ficava só com o desespero de saber que tinha alguma coisa acontecendo no mundo, como um buraco na camada de ozônio e blocos de gelo do tamanho de um prédio derretendo.

A geração que cresceu com a promessa de um aquecimento global descobriu que a única opção é lutar. Esta é mais uma das guerras que nós, juventudes de todas as partes, teremos que batalhar.

A responsabilidade é coletiva, porém os impactos dessa crise não serão sentidos da mesma forma por todos. Essa é a injustiça ambiental que existe desde sempre no Brasil.

Seja pela falta de braços suficientes para tantas lutas ou porque a interseccionalidade tem achado força e significado no debate popular, a pauta ambiental vem rompendo a bolha dos órgãos e especialistas e tem transitado pelas periferias.

Apesar disso, é importante dizer que o futuro não é um assunto prioritário para quem vive nos subúrbios e pega ônibus lotado em meio a uma pandemia, pois antes há prioridades como o combate à violência e às desigualdades.

Pode ser desafiador falar do “monstro invisível” das mudanças climáticas em um país onde existe um problema bem mais conhecido e presente na casa de quase 117 milhões de brasileiros: a fome.

Por outro lado, o atual debate de justiça ambiental (que é a perfeita tradução de que somos impactados de forma desproporcional pelos danos que causamos ao ambiente) permite o diálogo com quem está à frente do combate à fome, do debate sobre mobilidade urbana e das reivindicações do preço do ônibus.

Nesta grande conversa, estão incluídos também aqueles que abordam questões raciais e de gênero, se preocupam com saneamento básico, fazem governança comunitária, mobilizam por meio da fé e utilizam a arte para expressar a angústia do coletivo.

A gente descobre na prática o que é o socioambiental do qual falam que pertencemos, mas que nunca nos chamam para participar ativamente. Quanto mais se escuta sobre justiça climática, mais sentimos que falta espaço e, por consequência, maior é a necessidade de lutar pela inclusão de vozes diversas.

Se preocupar e agir pelo bem do planeta que queremos viver é resgatar o direito de sonhar. Em tempos difíceis para os sonhadores, a força está no coletivo, no que converge, reúne e une lutas que pareciam andar sozinhas. Até a forma como as desassociamos é fruto de um processo colonizador que molda a forma como vemos o ambiente e o nosso papel no mundo.

Quando a gente descobre que começar a agir pelos nossos é fortalecer a luta de um todo nos damos conta daquilo que se ouviu de Chico Mendes: “no começo, pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a floresta amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade”.

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Pandemia tem fomentado trabalho infantil na América Latina

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Cerca de 8,2 milhões de crianças entre cinco e 17 anos de idade trabalham na América Latina e no Caribe, uma região que ficou mais longe de erradicar o trabalho infantil por causa da pandemia, conforme advertido nesta sexta-feira pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Fundo de Emergência Internacional das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

“A combinação de perda de empregos, aumento da pobreza e fechamento de escolas é uma tempestade perfeita para a proliferação do trabalho infantil”, declarou o diretor regional da OIT para a América Latina e o Caribe, Vinícius Pinheiro

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